Aconteceu num fim de tarde cheio de vento, nuvens rosa, sua
boca tingida de vinho, contraída, concentrada. Ela se deu conta de que não era
feliz e que nem se quer fazia questão de ser a muito. Não sabia o que lhe cravava um sorriso, nunca
soubera até então o que lhe fazia bocejar, o que via quando olhava, e porque
não era como os outros que olhavam o que viam. Numa esperança tardia de se
encontrar, ainda que fosse pra chorar, não se via em lugar algum, não via
rumos, estradas, caminhos, escolhas. Queria, mas não sabia o que. Chorava, mas
não sabia o por que. Sofria, sofria muito, por todos, menos por ela mesma. Sentia
no peito uma saudade imensa de ser novamente uma criança e só ter de se
preocupar com os amores alheios. Queria viver numa caixa, sozinha, sem um mundo
inteiro a sua volta. Sonhar a realidade dos sonhos. Viver a dignidade deles.
Decidir. Validar. Nesse mundo em que vivia cheio de tristeza onde os portões de
ferro faziam um barulho aterrorizante nas madrugadas e um ladrão cantava atrás
do muro sem temer a morte ou a solidão. Sentia-se triste, muito triste, como se
estivesse muito longe de si mesma. Como se o restinho dela estivesse
bebericando o vinho e se entristecendo, e a outra parte morasse numa montanha
muito distante e cortasse lenha todos os dias para se esquentar a noite, e
neste fim de tarde estivesse vendo o mesmo céu rosa que ela, mas estivesse
olhando o que via e não doravante, tentando ver o que olhava. Alguma parte dela
estava feliz num morro sem trilhas.
segunda-feira, 14 de abril de 2014
domingo, 29 de julho de 2012
Do amor ao ódio
Poxa, eu nem sabia que hoje era seu aniversário. Tenho que confessar. Não, eu não sabia mesmo. Ah, às vezes eu esqueço até o meu. Tudo bem é mentira, eu sei, eu vivo mentindo, mas acredite em mim, eu realmente não sabia, e mesmo assim que importância tem? Você tem um monte de amigos e pode receber ligações de todos eles lhe parabenizando, passar à tarde no Benni’s comendo cachorro-quente e tomando gim (nunca achei que isso combinasse antes de te conhecer). Você tinha que lembrar logo de alguém que esqueceu a data mais importante da sua vida. É a sua vida, não a minha. Desculpe, não quero ser arrogante. Eu deveria estar dizendo apenas: Parabéns com uma exclamação daquelas! Mas você sabe que eu gosto de justificar tudo; por mais que nem tudo tenha uma justificativa. Eu só quero dizer que não é lembrando o dia em que você completa mais um ano nessa caminhada rumo à morte, onde todos nós estamos marchando que vai diminuir os meus sentimentos por você, seja lá quais forem. Do amor ao ódio. Nem devíamos comemorar este tipo de data, devíamos deixar passar em branco porque afinal, ninguém gosta de falar sobre morte e hoje foi só o que eu consegui imaginar: você morrendo queimado por trinta velinhas verdes e douradas com um chapeuzinho de aniversário na cabeça, não se via o rosto, pois estava atolado num bolo branco.
quarta-feira, 30 de maio de 2012
Te amo assim: no estilo “forever”
Sei lá, é que quando eu vejo você, me dá uma vontade boboca de escutar bossa nova, de ficar numa “wave”, ficar de boa, quando eu vejo você eu me sinto tão bem, tão boa. Eu me sinto numa brilhante roda-gigante. Quando eu estou com você, você é meu menino e eu sou sua menina: assim mesmo sem encrenca. De vez em quando dá um bode aqui e acolá, mas o resto é mar, o resto é “wave”. Eu só vou te contar que quando eu estou com você não tem terremoto, não tem tsunami, não tem tempestade, frio, calor, guerra que me tire de você. Porque quando estou com você por fora eu posso parecer só uma tola, mas por dentro eu sou o terremoto, a tsunami, tempestade, frio, calor e guerra porque estou com você. Da primeira vez pode até ter sido a cidade, mas da segunda sem dúvidas foi o cais e a eternidade.
ap.
domingo, 27 de novembro de 2011
A sagrada escolha
A vá. Se estás esperando uma benção minha então a tome logo de uma vez e vá para o diabo que te carregue, preste atenção porque ele carrega mesmo e te leva pra um tão fundo, mas tão fundo buraco que vais quebrar todas as tuas unhas tentando escalar as laterais lamacentas do buraco. Depois de um tempinho a sede chega, a fome, o desespero, as lágrimas e depois a desistência, tu sentas no chão do buraco, eis que o diabo lhe aparece e diz-te toda a verdade que tentei te dizer, e como tentei dizer, teria dito um bocado de coisas se tivestes me deixado falar. Teria dito muito mais se naquele conturbado dia tu houvesse atendido o telefone, me escutarias até cair tua orelha, mas tu? Nenhuma vez atendestes o telefone, tentei tanta vezes ligar, tanto que adiei a conversa para depois, para quando nós nos víssemos. Já estava tudo planejado, eu te diria as verdades, tu se concertaria e nós seriamos tão felizes quanto sempre merecemos ser. Mas vá, concedo minha benção para que escute teus pensamentos porque de qualquer maneira há uma hora em que todos sempre escutam o que ainda há por dizer.
ap.
ap.
sábado, 10 de setembro de 2011
A proteção e calor
Era um sentimento esguio e com falta de sorte, semelhante a angustia de não se confiar a ninguém. Parada ali, ela abria a boca, mas não saia som falso nem sincero, estendia a mão que ia até um ombro alheio, mas não lhe tocava, não lhe tocaria. Recatada ali, sem som nem tato, nem o anseio de memória segura. Chorava, pois era para rirem com ela, não ria, para que ninguém gozasse dela. O velho ditado já não fazia jus ao dia. Pressentimento ruim, preocupação sem olhar a quem, ela vagava o coração em busca de alguém que precisasse de suas preces, curtas e objetivas orações sobre as quais Deus escutava calado e guardava para si sua opinião divina. Mandíbula presa, peito aberto, nariz corcunda. Tentava andar, tentava se mover, porém tudo era seca sem ti. Tudo era solidão, choro de um Buendía. Sem ti ela era triste e vaga, sem ti não existia chão, somente paredes que serviam de empecilho na visão de um horizonte. E contigo? Era mar, era prato cheio. Contigo ela sabia que nos tempos de angustia era você em quem ela pensava, se preocupava, olhava, bradava. E ela confiava em ti, amava você, retirava sua casca e você era quem você foi esse tempo todo, quem tu és hoje do lado dela, com ela, protegendo ela, acalmando ela.
Deve ter sido por isso que num desses belos dias ela saiu de casa e mala na mão para Deus sabe onde. A procura de ti, diriam uns, mas talvez fosse pela sorte de encontrar embaixo de um sino Ele, que lhe diria como rezar em pro das dádivas e em que se preocupar quando não soubesse mais que caminho tomar, que pedra carregar ou para que mão apontar. Ela havia nascido sem unhas e suas mãos eram frias e finas como as Dele e foi nesses belos dias que se encontraram e rezaram juntos defronte a qualquer coisa que obtivesse luz. Ela pediu para que seus desejos sobre os quais desconhecia o sentido, se realizassem, Ele pediu para que os desejos dela fossem atendidos, e foram. A partir daí foi só choro e reza, choro para quem te quer, reza para quem te deixa. Analuz como era chamada ficou conhecida pelas suas andanças e seu glorioso encontro com Ele, o dono de todas as plantas e cogumelos existentes. Acabou nem se preocupando mais contigo, esqueceu a angustia de não te ter, parou de te procurar. Foi então por volta dessas consequências que embaixo de chuva te encontrou, solitário, molhado, necessitando caricias, Analuz e um belo guarda-chuva grande para leva-los até a lanchonete vazia do outro lado da rua. Foram os dois correndo através dos carros, sem guarda-chuvas nem escrúpulos, molhados e novamente esguios, sentados um em frente ao outro sem dizer uma palavra, pois muito já havia sido dito com o tempo. Amaram-se eternamente e só. Ele olhando lá de cima sorria pela dádiva que entregara a terra, o amor.
ap.
Deve ter sido por isso que num desses belos dias ela saiu de casa e mala na mão para Deus sabe onde. A procura de ti, diriam uns, mas talvez fosse pela sorte de encontrar embaixo de um sino Ele, que lhe diria como rezar em pro das dádivas e em que se preocupar quando não soubesse mais que caminho tomar, que pedra carregar ou para que mão apontar. Ela havia nascido sem unhas e suas mãos eram frias e finas como as Dele e foi nesses belos dias que se encontraram e rezaram juntos defronte a qualquer coisa que obtivesse luz. Ela pediu para que seus desejos sobre os quais desconhecia o sentido, se realizassem, Ele pediu para que os desejos dela fossem atendidos, e foram. A partir daí foi só choro e reza, choro para quem te quer, reza para quem te deixa. Analuz como era chamada ficou conhecida pelas suas andanças e seu glorioso encontro com Ele, o dono de todas as plantas e cogumelos existentes. Acabou nem se preocupando mais contigo, esqueceu a angustia de não te ter, parou de te procurar. Foi então por volta dessas consequências que embaixo de chuva te encontrou, solitário, molhado, necessitando caricias, Analuz e um belo guarda-chuva grande para leva-los até a lanchonete vazia do outro lado da rua. Foram os dois correndo através dos carros, sem guarda-chuvas nem escrúpulos, molhados e novamente esguios, sentados um em frente ao outro sem dizer uma palavra, pois muito já havia sido dito com o tempo. Amaram-se eternamente e só. Ele olhando lá de cima sorria pela dádiva que entregara a terra, o amor.
ap.
sábado, 6 de agosto de 2011
A Jamaicana prosaica
Jamaica, 21 de julho, meio dia a pino. Uma senhora careca senta ao meu lado no ponto de ônibus, ela cheira a pipoca de milho e cigarro, o perfume vulgar ainda molhando perceptivelmente sua nuca; resmunga numa língua estranha sobre um livro grosso e desinteressantemente preto acomodado no seu colo velho e negro. Suas vestes são delicadamente rosas, combinadas de propósito. Pra onde a velha vai? Olho-a discreta e curiosa de cima a baixo, a mulher tem tatuagens nas pernas que outrora foram musculosas, porém, ainda resistentes. Ela me olha taciturna e desvia o olhar para a rua barulhenta e desinformada. Eu aponto o livro e um olhar de dúvida. A partir de então descubro toda sua peregrinação quase centenária. Recordo-me apenas de uns miseráveis trechos da conversa, soube que se dizia vidente e um bocadinho alquimista, tinha noventa e cinco anos de idade, não largava o prazer de se maquiar todos os dias desde que tinha 12 anos, sua mãe nunca soube, seu pai muito menos, foi criada pela vida. Lembro-me muito bem dos seus devaneios a espera do ônibus, na minha medíocre ousadia de reproduzi-los foram mais ou menos assim: “Num dia qualquer como este eu ainda subo num desses prédios altos da cidade e grito, estridente, violenta, fazendo suicidar-se precipício abaixo as angustias. Tanto desejo vomitar os problemas meu anjinho, como anseio semelhante a qualquer mortal das terras, ares e águas conhecer a causa, o simples porque do: Nós somos o que somos e estamos onde estamos. Por que nosso coração bate e nossa consciência pesa. Por que as reações são impostas á medida das ações. Ter a sabedoria do porque dos sentimentos das tardes, das insônias das noites e muito remotamente do perfeito e inalcançável sono das manhãs. Anseio em suma conhecer os escuros do mundo, o que há por detrás de todas as formas de escrituras e então com precisa certeza dizer-me se devo ser feliz como a aurora boreal ou triste como o ápice da dúvida. Ou ainda que um meio termo eu encontre, já sendo de esperar; e a resposta da crença invisível me diga que tenho de ser por toda a vida a aurora e a dúvida, o coração e a consciência, os sentimentos e a sabedoria, o sono e a insônia de ser o que sou.” O ônibus chegou, não olhei o número, esqueci, talvez fosse o meu. Adeus, velha senhora careca, obrigada por compartilhar comigo alguns tragos de seu cigarro barato, suas pipocas de milho e seu perfume trivial.
ap.
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quinta-feira, 14 de julho de 2011
Could you be loved
É mentira que a morte nos encontra no mais póstumo beco escuro do medo, de supetão. Ela chega e sim, é inequívoco que faz as devidas saudações, prepara-te para o dia em que fecharás os olhos para o mundo, e até a mais fofoqueira das fofoqueiras guarda dentro de si o dia em que morrerá. Pelo caso de não saber, sabe-se ainda sim no inconsciente das fobias e dos choros convertidos em chuvas dos sonhos, pois morrer sem a fantasia dos devaneios é em sua essência corar sem ter o ego machucado, olhar sem ser olhado, eu não quero para meus filhos os meus próprios e miseráveis males, quem quiser arrancar da macieira uma laranja, faça bom proveito das lagartas buliçosas poluidoras dos maracujás.
ap.
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